FBI desbloqueia iPhone e critica Apple por “não ter ajudado”, Apple fala em “desculpas”

FBI desbloqueia iPhone e critica Apple por “não ter ajudado”, Apple fala em “desculpas”

20/05/2020 0 Por Redacção

Regressa uma das polémicas mais antigas na tecnologia: as autoridades contra a encriptação. Se, de um lado, há quem argumente que a encriptação prejudica investigações, ao abrir um espaço seguro para que a criminalidade cresça em segredo, do outro lado responde-se que não podemos comprometer liberdades pessoais em nome do policiamento – o poder é demasiado.

O caso que reacende esta discussão remonta a Dezembro de 2019, e tem a ver com um ataque a uma base aérea naval na Florida. O FBI obteve dois iPhones: um iPhone 5 e um iPhone 7, um deles com Touch ID – e este pormenor é importante. Para percebermos porquê, há que recuar alguns anos, para entender o que aconteceu noutra situação semelhante.

O tiroteio de San Bernardino

Um dos casos mais gritantes nesta polémica surgiu em 2015. Um tiroteio em San Bernardino, Califórnia, foi tratado como um caso terrorista e investigado pelo FBI. Ao longo da investigação, foi possível recuperar o telemóvel de um dos criminosos – um iPhone 5C. Um dos primeiros passos por parte da autoridade federal foi o de tentar obter dados desse equipamento – contudo, estava bloqueado com um código de segurança, e a Apple tinha introduzido recentemente novas medidas de protecção – nomeadamente a encriptação total dos dados do utilizador.

A pressão federal

Após 10 tentativas falhadas, os dados seriam permanentemente bloqueados, uma vez que os iPhones, como medida de segurança, eliminam a chave que protege essa informação. O FBI contactou a Apple, que admitiu não ter possibilidade de extrair dados daquele equipamento, e que portanto não cooperou na investigação. Numa tentativa de escalar a situação, o FBI solicitou aos tribunais que obrigassem a Apple a desenvolver software novo, que permitisse tentar qualquer número de PINs sem os dados serem perdidos.

A resistência da Apple

Segundo o FBI, esse novo software poderia ser desenvolvido de forma a apenas ser utilizado por entidades governamentais, ou até só neste caso específico. A Apple, não concordando que isso fosse realista, e acreditando que esse software, uma vez criado, poderia cair nas mãos erradas – ou ser abusado pelas entidades a que se destinava, o que também é plausível – recusou-se a cumprir com a ordem do tribunal. Gerava-se uma polémica imensa, onde a Apple responderia com uma das tomadas de posição mais fortes vistas nesta polémica. Um sólido não, mas levando a questão aos utilizadores, em termos fáceis de entender.

O Governo dos Estados Unidos pediu à Apple que tomasse uma medida nunca antes vista, que comprometeria a segurança dos nossos utilizadores. Nós não concordamos com esta ordem, e acreditamos que cumpri-la teria implicações muito para lá deste caso concreto. Queremos que o país e que os nossos clientes entendam e discutam isto

Tim Cook, num comunicado emitido em 2016

E a resposta da Apple – que é de louvar, note-se – funcionou em termos de sensibilização. Estudos da altura apontam para uma divisão total na população americana sobre esta questão, com partes iguais a defender o FBI e a Apple.

O Departamento de Justiça dos EUA escalou a situação para os tribunais federais, argumentando que a Apple poderia fazer o procedimento remotamente, incluindo a instalação e remoção do software. A Apple voltou a recusar, com uma resposta semelhante à anterior, e começou uma batalha legal que haveria de terminar de forma mais ou menos improvável.

No fim, venceram os hackers

O FBI desistiu de tentar coagir a Apple a quebrar a sua própria segurança quase dois meses depois da primeira tentativa. Foi estabelecido um contrato com uma empresa israelita chamada Cellebrite, que tinha descoberto um método de entrar no telemóvel e de obter os seus dados. Mais tarde, soube-se através de James Comey, director do FBI, que esse método apenas funcionava em equipamentos sem Touch ID, e que custou 1.3 milhões de dólares aos contribuintes americanos.

A Apple acabava por conseguir defender os seus utilizadores, um pouco por exaustão, mas a questão do Touch ID deixava no ar que a polémica haveria de voltar – afinal, o iPhone 5C era o único modelo em produção naquela altura que não tinha essa tecnologia.

A situação do presente – e um desfecho idêntico

Voltando agora à actualidade, recordemos que o FBI apreendeu dois iPhones no tal ataque ocorrido em Dezembro do ano passado – um iPhone 5 e um iPhone 7, um deles com Touch ID, e portanto não suportado pelo método que a Cellebrite utilizou no ataque de 2015. Novamente, o FBI solicitou a ajuda da Apple, até com pressão de Donald Trump. Novamente, a Apple recusou-se a ajudar, cedendo apenas dados que pudessem ter nos seus servidores, guardados no iCloud. Novamente, alguém conseguiu furar a segurança do iPhone – e desta vez, a agência federal quis deixar claro que a Apple não ajudou, sublinhando especificamente “que foi um excelente trabalho do FBI, e não da Apple”.

A resposta da Apple, outra vez

Isso suscitou uma resposta da Apple, que sabe que é importante o público entender o que está realmente aqui em questão – para lá da política. A tecnológica americana notou que “não há backdoors [falhas de segurança propositadas e ocultas] para good guys, e é falso que os americanos tenham de escolher entre enfraquecer encriptação, e investigações eficazes“. Sublinha, também, que “estas falsas declarações sobre a Apple são uma desculpa para enfraquecer medidas de segurança“.

A resposta da Apple neste caso, qualificando a atitude do FBI de “desculpas”

São declarações fortes que voltam a colocar a empresa americana ao lado dos seus utilizadores, ao recusar-se liminarmente a abrir excepções que podem ser perigosas. Afinal, se a Apple permitisse este tipo de acesso aos seus sistemas, como é que poderíamos garantir que as ferramentas não chegariam às pessoas erradas, ou, mais importante ainda, como é que sabemos que as pessoas certas, sejam lá quem forem, não iriam utilizar este software de forma imprópria? É só mais um capítulo numa polémica com décadas de existência, e que não encontrará um fim tão cedo.

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